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ed_blake
14 October 2009 @ 11:12 pm
E eis que estou no trabalho, a revisar a tradução de uma enciclopédia sobre aviões de guerra. Negócio chatíssimo, cheio de termos técnicos e com tanta informação desnecessária que o pouco do charme trágico que as guerras sempre têm acabava se perdendo no meio de todas aquelas siglas, datas e nomes de pricipados estranhos. Mas nada nesse mundo é tão enfadonho que não possa te render umas boas risadas. Prova disso é o seguinte trecho, que desencavei do meio do tal livro:

"Com ou sem folhagem, identificar os movimentos do inimigo também era dificultado pelo fato de a NVA e os VC serem mestres da camuflagem. No início, as forças dos EUA usavam sensores instalados em “Hueys” que identificavam traços de urina, mas quando uma enxurrada de alarmes falsos começou a chegar e elas lembraram que elefantes e búfalos da Índia na selva também urinavam, começaram a pensar em uma tática diferente."

Desnecessário dizer que ri até as dores abdominais. Em matéria de humor involuntário, os norte-americanos NUNCA decepcionam. A tacanheza (acabo de descobrir que existem os substantivos "tacanhice", "tacanheza" e "tacanharia". Gostei mais do segundo) desse povo é absolutamente ilimitada. Só rindo, viu? 

 
 
Sendo: blah
Ouvindo: I don't feel like dancing - Scissor sisters
 
 
ed_blake
16 September 2009 @ 11:20 pm
Eu no ônibus voltando do trabalho, relativamente bem-humorada para os meus padrões, uma HQ muito boa para me distrair no longo caminho e nada de chuva para me molhar toda na parte do percurso que eu teria que fazer a pé. Tudo convergindo para uma noite normal, sem grandes coisas boas ou ruins.

Pelos meus cálculos, eu poderia ter terminado a leitura da HQ durante o percurso, aí amanhã eu começaria a ler aquele monte de quadrinhos do Miyazaki que o driagramador boa-praça lá do estúdio me emprestou e que já estão comigo há séculos. Mas eis que uma voz me vem interromper a leitura. Não aquelas vozes de conversa de ônibus, um negócio meio baixo que não dá pra discernir direito, mas uma voz alta, clara, aguda e estridente.

Ai, meu pai.

Nem olhei pra cara da criatura e tentei continuar firme e forte com meus quadrinhos. A voz continuava lá, berrando, disputando com todos os outros passageiros, com o barulho do motor e do congestionamento da rua. Respirei fundo, marquei a página e olhei pela janela. Eu ia conseguir abstrair, Nossa Senhora do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ia me ajudar!

Mas não. Murphy, assim, tem uma relação toda paternal comigo. A senhorinha que estava sentada ao meu lado se levanta e a criatura de voz de taquara rachada se senta do meu lado. Fechei a HQ e me rendi. Não ia dar pra disputar com aqueles decibéis do meu lado. E foi aí que eu percebi o pior: ela estava flertando com um sujeito. A viagem não ia render mais porra nenhuma mesmo, que aquela voz não me deixava espaço nem pra pensar, então resolvi dar uma olhada no naipe dos dois: ela, loira, olhos claros, gordinha e segurando a porcaria de uma mala que estava totamente invadindo o meu espaço dos assentos. Mas, né, eu sou uma lady, não consigo barraquear no ônibus, é uma das minhas grandes falhas de caráter. Ele era bem mais novo do que ela, doido pra impressionar. De fazer pena, sério.

Aí ela começou a dizer que trabalhava num fórum e que lá não tinha wireless e que ela precisava urgente de um modem GSM, que tinha gastado horas pra conseguir instalar um antivírus chamado Nordon (sic) no laptop, que não entendia nada daquilo e coisa e tals e tal e coisa. Aí vem ele, todo solícito, dizer que trabalha com informática, dando cartãozinho pra ela, dizendo que precisando era só ligar que ele estava à disposição e ela ria, e a risada dela ia me irritando e eu ia rodando os olhos ao infinito e além, toda a certeza do mundo de que chegaria em casa com eles desparafusados da cara. Mas isso não foi nada, meu povo. Isso era apenas uma provinha do que estava por vir:

"Ah, porque eu já sei o que vou fazer no meu TCC, sabe? Eu sou uma pessoa muito organizada com meu trabalho de Direito, adoro Direito, aí já sei o que vou fazer: eu pensei em fazer sobre as prova criminal, sabe? Mas achei meio sem graça, sem glamour, que Direito, cê sabe, é um curso cheio de glamour. Aí tive uma idéia: vou fazer sobre espiritualidade no Direito. Hoje em dia tem muitos juiz que aceita psicografia como prova criminal, sabia? Eu acho muito bonito isso, do juiz respeitar todo tipo de manifestação religiosa, sabe? Mesmo as não-viva (?). Mas tenho que começar a planejar logo, que é uma área repleta de vastos materiais, tem muitos pensador, sabe? Frêud (ai, meus tímpanos), Chico Xavier(??), Alan Kardec (MASOIQONDE///~)".

Broxei da vida, gente. Nunca mais saio sem meus fones de ouvido, isso é um juramento solene.


 
 
Sendo: dirty
Ouvindo: Surrender - Elvis Presley
 
 
ed_blake
15 September 2009 @ 12:01 am
qual foi a substância ilícita da qual eu me utilizei antes de escrever o post anterior, mesmo?
 
 
Sendo: crappy
Ouvindo: Closer - Nine Inch Nails
 
 
ed_blake
... mas não é. É só uma coincidência, afinal, não posto aqui desde shame on me abril. Serei menos relapsa, procrastinadora, escrota, irresponsável e bitch. Opa, esse último não.

Um amigo me disse ter lido em um e-mail que, em alguns anos, os islâmicos perfarão uma porcentagem assustadora da população mundial. E nada de guerras ou uso de qualquer força: isso se dará só com o aumento natural (e exponencial) da populaçao fiel e conversões. E aí eu parei pra pensar: mas por que caralhos uma pessoa se converte ao islamismo? Ou a qualquer outra religião não-legal (as religiões do extremo oriente, em geral, não costumam me desagradar de todo)?

Deve haver vários caminhos que levam à conversão: aquilo que eles chamam de experiência espiritual; um momento de desespero na vida em que nada mais parece fazer sentido; e... er... tédio mortal e completa inaptidão para qualquer outro hobby? Porque eu não consigo deixar de pensar na religião como uma espécie de hobby superestimado, como um escapismo da vida real. Há os otakus, os escritores, os poetas, os geeks e os religiosos. E os religiosos são piores que o os otakus. Não tem ofensa mais ácida. Não entra na minha cabeça que haja quem realmente acredite em noções como castigo divino, céu e inferno. A não ser, é claro, quando lhes é muito conveniente. Mas vamos parar de divagar que eu já estou desgraçando o post com as minhas costumeiras digressões.

Experiência espiritual, o que é isso? Eu já vi pessoas caindo de joelhos diante de um hostensório gritando, chorando, tremendo e pedindo perdão, como se naquele momento Deus, Maria, Jesus, a pomba e os carneirinhos do presépio tivessem descortinado todas as coisas terríveis e indesculpáveis que os sujeitos em questão tivessem feito na vida. Eu não sei se o meu ceticismo é forte a ponto de negar completamente a existência de algo como isso, mas eu sempre tendo a acreditar que essas tais experiências não passam de catarses que vão pelo caminho fácil. É bem mais cômodo e soa muito mais bonito vir com esse papo de que a força maior notou que minha vida estava fora dos eixos e veio em meu auxílio. Dizer que você se arrependeu de todos os seus pecados porque o Todo-Poderoso te fez vê-los é muito mais digno do que admitir que um belo dia algo te fez perceber que você era um merda completo e que estava na hora de dar um jeito na bagunça da sua vida. Com uma justificativa tudo fica mais fácil. Com uma justificativa cósmica, então, pff. Brincadeira de criança.

Há quem opte pela religião quando a vida está totalmente fodida, quando caminho nenhum faz sentido. É mais ou menos a mesma coisa da experiência espiritual, só que sem a parte mística da coisa. A pessoa simplesmente decide que o único jeito de resolver os problemas é negociar diretamente com O Criador. Aí entram um monte de conceitos geniais criados pelas formas organizadas de religão:

~ É necessário que você seja uma pessoa boa, mas não precisa ser, assim, essencialmente bom. Todo o lance do fruto proibido fez com que a estirpe de Adão e Eva se tornasse pecadora, logo, errar é permitido, embora não seja exatamente indicado. Mas errando, você pede perdão e está tudo okey. Você pode até mesmo deixar pra pedir perdão lá no fim da vida, quando já tiver esculhambado tudo o que tiver pra esculhambar. Prático. Simples. Religiosos são publicitários que não descobriram suas verdadeiras vocações. Fato.

~ Aliás, sobre esse lance de ser perdoado, na Igreja Católica, se você comparecer nos dias certos, se pagar seu dízimo, sua oferta, todas essas coisas bem bonitinho, você pode até conseguir o dom da indulgência plenária. É ou não é genial? Uma espécie de liquidação de perdão todos os dias! Talento puro e simples para o marketing brilhando muito no Vaticano, beijos.

~ Sempre que um religioso faz algo de bom, não foi bem ele quem perpetrou o ato. Na verdade, foi o Espírito Santo que, entidade incorpórea, precisa de uma via humana, humilde e disposta para poder espalhar bondade, perdão e todas essas coisas legais por aí. Mas o religioso não pode deixar o cachimbo cair, porque ele é marcado com a mancha do pecado original. Logo, tem que fazer sempre fazendo a putinha do Espírito Santo na hora em que a pomba-gira (inserir sincretismo no texto, ok) quiser, para servir de via da bondade divina. Senão, né, pecou. E vai ter que pedir perdão, para não ser castigado. Mas, pera, você não pode pedir perdão a qualquer momento? Pera, pera, Deus não castiga, ele só nos dá o que merecemos. Não, calma aê, na verdade Deus é infinitamente misericordioso e não faria uma coisa dessas com seus filhos. Mas, hm, Deus matou seu filho, o sal da terra e a luz do mundo, pra salvar todos os outros. E teve os primogênitos, que eram só crianças e teve o dilúvio, e er... hm... então.

~ Isso me lembra esse negócio de Deus chutar Lúcifer lá de cima. Então Lúcifer queria ser maior que Deus, certo. Já notaram que os livros sagrados podem ser metafóricos ou literais dependendo dos interesses dos religiosos ou do tema da conversa? Então. Esse lance de Lúcifer, pra mim, é bem metafórico. Então Deus cria um anjo que é o mais belo de todos e o chama de ~ Estrela da Manhã ~. Não dá pra não pensar em gayporn, não dá. Lúcifer foi derrubado com todo o seu séquito porque Deus cansou de ser passivo. Ele queria comer também e começou uma DR. Fato. A prova cabal? Sodoma e Gomorra destruídas. God, I know what you did here, seu mal-comido.

~ Continuando o parágrafo anterior, se você faz algo certo, Deus te iluminou. Se você faz algo errado, o demônio te tentou. Aliás, por que é que se escreve demônio com minúscula? Eu vou escrever com maiúscula, o cara é o antagonista! E, vamos respeitar, tirando os aspectos freudianos da coisa, ele é bem mais interessante que o protagonista, hein? Então, com maiúscula: Demônio. Mas, voltando, o bom é de Deus, o ruim é do Capeta. Você nunca tem mérito ou culpa. Viver assim é muito, mas muito confortável. Estou aqui me perguntando por que diabos eu não me converto agora mesmo. Ser atéia ou agnóstica e responder pelos meus próprios atos é sooooo last week. Sou humana, fraca, falível, manipulável. Até aí todo mundo é. O que eu não sabia é que as entidades deísticas podem responder por mim. Great. TÁ TUDO BEM AGORA, ENTEI.

~ Em tempo, esse negócio de Pokémon é pecado, viu? Incita a violência nas nossas crianças puras que precisam ser criadas longe de qualquer manifestação negativa, porque, né, vivendo através dos desígnios de Deus Pai, eles jamais precisarão se indispor contra coisa nenhuma e suas vidas serão como aquelas colinas que aparecem nas paisagens européias: verdes, cheias de flores, árvores, o céu azul, os pássaros voando, o amor divino transcendendo qualquer coisa. Aliás, crianças, qualquer coisa, gritem por Papai do Céu que ele resolve. Se defender por si mesmo e aprender a usar/lidar de/com agressividade está fora de questão. Pra que aprender a lidar com qualquer coisa dessas? Seus pais estarão ali durante toda a sua vida e você deverá satisfações eternas a eles, mesmo, tá lá nas tábuas (quê? Não tá? Acho que você não pegou o espírito: o que você quiser estará nas tábuas na hora em que você precisar. Questão de retórica, querido). Qualquer coisa você chama sua mãe. Ela é a personificação de Maria, mãe de Jesus, saca? E seu pai é José. Meio corno, aliás, porque no fim das contas você é filho é de Deus. Quase ninguém liga de ser corno pra Deus, é meio que uma honra. Que nem aquele cara cuja esposa foi beijada pelo Bono Vox aqui no Brasil. Ele foi corneado com o Bono Vox, não com o filho do Seu Zé da padaria, sabe? Outro departamento. Se você ligar de ser corno pra Deus, além de herege, você é um loser, vai por mim.

Agora, quando a pessoa resolve se converter ao islamismo ao invés do catolicismo, a coisa já é mais tensa. Porque ela está com tanta vergonha de si mesma que quer passar o resto da vida atrás de uma barba ou de uma burka. Essa aí realmente não tem um real de apreço pelo próprio traseiro e só uma palavra pode definir sua auto-imagem: escória. Se submeter às mais duras regras, rezar não sei quantas vezes por dia, oprimir a esposa (ou ser subjugada pelo marido), sair por aí ordenando a fatwa a cartunistas ou escritores que mexeram com seu profeta... TENSO. Acho que a pessoa que cogita uma coisa dessas deveria considerar seriamente a idéia de tentar ingressar no BOPE. A essência é a mesma, só muda de Jihad.

Tá, tá, eu faço posts menores, mais coesos e coerentes numa próxima.


 
 
Sendo: bitchy
Ouvindo: Closer - Nine Inch Nails
 
 
ed_blake
30 April 2009 @ 05:31 pm

Minha mãe curte deixar a TV ligada na Canção Nova o dia inteiro, diz que abençoa a casa (?). O computador fica dentro do raio que o maldito som da TV alcança, então imaginem vocês que meus dias de trabalho costumam ser animados pelo catolicismo televisionado. Pra quem não sabe, a Canção Nova é uma rede de TV que se diz sem fins lucrativos, mantida por uma comunidade de católicos que dedicam a vida à obra divina, sendo que a manutenção financeira fica por conta das doações de seus associados. Aham, Padre Jonas, senta lá.

Todos os dias eu ouço os terços, as pregações, as propagandas do DAVI (Departamento de Audiovisual; criativo, não?), ouço a Myrian Rios alertando para os perigos da vida desenfreada dos artistas (eles a deixam ter um programa e querem ser levados a sério, ok) e ouço até um tal professor Felipe Aquino dizendo que os pais precisam tomar MUITO cuidado com os filhos quando esses vão para a faculdade, porque os professores universitários propagam o ateísmo e destroem a inocência das pobres crianças. E, ah, não podemos esquecer que eles contam com o Padre Gato Fábio de Melo, que atualmente ocupa o topo das paradas de sucesso na casa das tias de todos vocês.

Uma das coisas legais na religião é o trashness, que costuma ser atraente quando se quer dar umas risadas. Mas na Canção Nova, a maior parte das atrações nem chega a ser engraçada, só patética. Tipo, você escuta aquilo e diz pra si mesmo que um católico minimamente inteligente, por mais fervoroso que seja, não vai cair num papo tão facilmente desarticulável, numa balela tão velha. Mas catolicismo fervoroso e inteligência são expressões que raramente podem ser enfileiradas sem que haja uma negativa no meio, certo?

Talvez tenha sido porque eu estava um pouquinho mais estressada do que o habitual, talvez tenha sido o mau-humor advindo de ter que acordar ou a enxaqueca, mas o que eu ouvi hoje soou um pouco escroto demais pra que eu conseguisse absorver numa boa e dar um daqueles sorrisinhos de canto de boca.

O dia começou com “As demais religiões precisam compreender que Maria não é um obstáculo! Ela é a filha do Pai, a mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo! Sintam a relação de proximidade que a Virgem tem com a Santíssima Trindade!”. Aham. Senti, a complexidade da coisa, ó. Engraçado que até lembra aquele caso do Josef Fritzl, né não? Em MUITOS aspectos, inclusive o de negar socorro a um filho e deixá-lo morrer. Uns poucos minutos depois, o mesmo cara ataca de “Todos precisam de uma mãe humana para dar o leite materno e uma mãe celeste pra dar o leite espiritual”. Leite espiritual. Bonita essa expressão. Vou anotar pra usar quando for possível –not. A pregação genial foi fechada com a afirmação de que, não fosse a nau capitânia se chamar Santa Maria, Cabral jamais teria encontrado o Brasil. Óbvio, porra. O cara era português, cês acham que sem ajuda divina ele conseguiria achar o que quer que fosse?   

Depois do almoço, começaram a orar em línguas. Se você nunca viu alguém orar em línguas, procure no youtube ou vá até a reunião mais próxima da Renovação Carismática Católica, porque você vai achar realmente engraçado. Quem já jogou The Sims pode ter uma boa idéia da coisa lembrando de como as pessoas falam no jogo. É mais ou menos aquilo. Geralmente é a repetição de algo como “shirielabarielalalalalauêêêêia shiriela”. Shiriela é a “palavra” que eles mais usam. Dizem que estão orando na língua dos anjos. Que são gemidos inefáveis. Sim, gemidos inefáveis. Quem entender essa e me explicar ganha uma paçoquinha.

Enquanto eu escrevo isso, o Padre José Augusto, cujo ministério (ministério é o dom da pessoa, sacam?) envolve as mazelas sexuais do mundo moderno – e quando eu digo mazelas, não estou falando de DST’s – , está contando a história de um eunuco prostituído que recebeu a visita de um anjo. Se Deus deixou que o pau do cara fosse decepado, mandar um anjo como prêmio de consolação era o mínimo que Ele podia fazer. Aê, Senhor, ponto pra ti. Só não precisava ter incluído esquizofrenia no pacote.

 Ter uma mãe religiosa é até divertido.

 

Ok, não.

 
 
Sendo: contemplative
Ouvindo: One of us - Joan Osbourne